Três livros para compreender vigilância e privacidade hoje

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Tudo Sobre Tod@s (de Sérgio Amadeu), Weapons of Math Destruction e The Art of Invisibility (de Cathy O’Neil e Kevin Mitnick, respectivamente, títulos por ora disponíveis apenas em inglês) são leituras que abordam as diferentes camadas da “Era do Big Data” 

Três obras lançadas recentemente compõem um quadro abrangente para quem quer compreender o que significam as principais expressões que povoam os debates sobre nossa sociedade conectada: big data, tracking, bots, algoritmos, privacidade, vigilância. Li as obras na sequência por acaso e recomendo a leitura conjunta, pois abordam diferentes camadas e ângulos de um mesmo assunto.

Tudo Sobre Tod@s, do sociólogo brasileiro Sérgio Amadeu da Silveira, serve de moldura e de tela para esse quadro. Ele traça um panorama sobre o conceito de privacidade ao longo do tempo, estabelecido inicialmente pela doutrina liberal como direito fundamental e constitutivo das democracias modernas. Amadeu chama a atenção para alguns fundamentos discursivos falaciosos que têm, cada vez mais, alterado nossa percepção sobre privacidade e transparência em diferentes espaços:

1) A privacidade morreu ou perdeu completamente o sentido na contemporaneidade;
2) Os governos devem ter cada vez mais áreas de atuação protegidas, opacas, para o próprio bem e segurança da sociedade;
3) As companhias não podem ser transparentes pois teriam seus modelos de negócios anulados pela concorrência;
4) Para avançarmos a ciência é preciso pesquisas sigilosas e tecnologias com o código-fonte fechado.

Amadeu também descreve novos campos de estudo e de ação do mercado, como “governança algorítmica”, a mineração e o comércio de dados pessoais. Para compreender o que está em jogo, é importante entender os dados pessoais não apenas como as informações que normalmente relacionamos à nossa identidade, mas também — e principalmente — os cliques e o comportamento de todos nós ao navegar na internet.

No segundo livro, “Weapons of Math Destruction” (ou as “armas de destruição matemática”, numa tradução livre de trocadilhos), a cientista de dados Cathy O’Neil traz as pinceladas que dão cores e forma a este quadro.  Ela mergulha sobre o funcionamento de modelos matemáticos que influenciam nossas vidas, por meio de governos e corporações, da publicidade aos presídios, passando por escolas, saúde, relações de trabalho.

Algoritmos são o passo-a-passo, as regras de funcionamento, de sistemas, análises e programas. Se mal concebidos, eles podem se transformar nessas armas de destruição matemática com consequências perniciosas para a democracia. Em geral, os dados disponíveis não são suficientes para traçar correlações precisas. Então são escolhidos “proxies”, informações que substituem esses dados inexistentes, por exemplo traçando correlações entre o CEP de uma pessoa, ou padrões de linguagem, ao potencial dessa pessoa de pagar empréstimos ou a sua competência para determinado emprego. O’Neil exemplifica casos em que essas correlações são discriminatórias ou mesmo ilegais, mas por estarem embutidas em sistemas opacos não são questionadas.

As “armas de destruição matemática” descritas por O’Neil possuem três características principais: opacidade, escala e dano. Esses modelos matemáticos criam regras e correlações distorcidas da realidade e, sem virem a público (opacidade), atingem a um grande número de pessoas (escala) e impactam sobre suas vidas, causando situações de discriminação e ampliando desigualdades (dano).

Aqui é um dos momentos em que Tudo sobre Tod@s e Weapons of Math Destruction se entrelaçam. Amadeu nos explica que a opacidade de códigos e de processos (inclusive algoritmos) é a forma de operar dos agentes das sociedades informacionais. O discurso difundido nos faz aceitar a “transparência quase total para as informações dos cidadãos e a opacidade quase completa para os dados e o conhecimento gerado ou apropriado pelas corporações”. Mas, ele lembra, uma sociedade democrática exige algoritmos abertos — precisamos de transparência sobre como as decisões estão sendo tomadas:

algoritmos serão cada vez mais os verdadeiros legisladores de nosso cotidiano.

Por fim, o livro de Kevin Mitnick, “The Art of Invisibility”, traz a riqueza de detalhes desse quadro com um ângulo inusitado: trata-se de um manual com dicas bem específicas de como navegar na web de forma anônima e segura, sem deixar rastros e sem sofrer ataques. “Continuar online, mas mantendo nosso direito à privacidade”, anuncia. Hacker que já esteve preso e por muitos anos aplicou essas técnicas para fugir das autoridades, Mitnick é um reconhecido especialista em segurança e faz testes de intrusão — ou seja, é pago para tentar invadir sistemas em busca de vulnerabilidades. Ele defende que todos deveriam poder manter sua privacidade, qualquer que seja sua motivação: não ser alvo de publicidade indesejada, não ser alvo de fraudes online, proteger-se de um ex-namorado “stalker”, ou simplesmente, porque sim.

Se você tem curiosidade para saber como esses mecanismos funcionam na prática, nada melhor do que dicas sobre como se proteger deles. Recomendo, no entanto, que não tenha a intenção de seguir todos os passos, ou a frustração é certa. O próprio Mitnick reconhece que, seguidos todos os passos, ainda há vulnerabilidade. E muitos não são passos fáceis: comprar gift cards com dinheiro vivo, manter máquinas diferentes para acessar bancos online, ‘lavar’ bitcoins. Outras dicas, porém, são mais singelas e valem a pena: como lidar com senhas ou como baixar plugins gratuitos da EFF (Eletronic Frontiers Foundation), por exemplo. A linguagem é agradável (na verdade, eu ouvi o audiobook) o suficiente para você se deixar levar por esse mundo, sem neurose, apenas porque… bem, é sempre bom saber.

Mais sobre os livros:

Sobre a autora

Fernanda Campagnucci

Jornalista e gestora pública, especialista em acesso à informação, transparência, integridade e educação. As opiniões expressas neste blogs são pessoais.

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por Fernanda Campagnucci

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