Memórias de um ensino médio técnico e machista: “voltem pra cozinha, vão lavar roupa!”

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O machismo me expulsou do mundo da tecnologia.

A frase é simples, tem sujeito, predicado e objeto bem definidos. Mas demorei 15 anos para processar, articular e, finalmente, decidir escrever o que está por trás dela.

Tinha 14 anos quando entrei no curso técnico em Eletrônica no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. O ingresso se dava por um “vestibulinho” bastante concorrido, mas, debates sobre os males da meritocracia à parte, formavam-se turmas relativamente heterogêneas, do ponto de vista socioeconômico e geográfico da cidade.

Mas não do ponto de vista de gênero. Naquele ano, último do século XX, havia sido o “boom” de mulheres no curso: éramos 7, em uma sala de 40. Até então, era normal que houvesse uma ou duas nas turmas. O curso de Mecânica continuava com essa média, ou menos (às vezes, não havia nenhuma garota inscrita).

Desde criança, sempre fui curiosa com esse universo. O fato de ter um pai e uma mãe não-machistas certamente abriu meus horizontes. Gostava de ajudar meu pai com os consertos mecânicos ou de ver meu irmão, que havia estudado Eletrônica também, fazer seus trabalhos. Jogava futebol e gostava de rock, mas também (faz parte!) de Spice Girls.

A mim e à minha irmã, meus pais sempre ensinaram que a melhor coisa que poderia acontecer a uma mulher é… a mesma que a um homem: buscar conhecimento e ser autônoma, financeira e emocionalmente.

Aos 14 anos e autodidata, então, eu já fazia sites em HTML, consertava e montava computadores. Já ia pela vizinhança do Jaçanã trocando serviços eletrônicos por uns trocados, ou por coisas como um violão. Já tinha até ido parar em outra ponta da cidade, na zona leste, para instalar um modem ou expandir a memória do PC de alguém que alguém indicou… eu me divertia assim.

Não que eu já sonhasse ser uma engenheira. Na verdade, já havia, àquele ponto, uma queda pelo Jornalismo. A opção pelo curso médio técnico era por poder fazer algo de que gosto na escola e ter uma profissão para, eventualmente, conseguir pagar a faculdade, qualquer que fosse.

Vamos, então, aos episódios que marcaram minhas memórias naqueles três anos, de 2000 a 2002. É preciso dizer que foram diluídos em muitos outros momentos de companheirismo, risadas, descobertas. Eu gostava de meus colegas – alguns foram namorados, outros bons amigos.

Mas aí é que entra um ensinamento do feminismo: o pessoal é político. Reconhecer a discriminação de gênero que cada uma de nós passa é um processo de tomada de consciência individual, mas também coletivo. Com os óculos do feminismo, podemos identificar essas situações particulares que passamos e podemos, então, nos ver como parte de um coletivo historicamente discriminado e lutar por mudanças. E espero que meus colegas, ao longo dos últimos 15 anos, tenham tido a oportunidade de enxergar as coisas com novas lentes, também1.

  • Uma garota levanta a mão para fazer uma pergunta durante uma aula qualquer. Imediatamente após a pergunta, qualquer que fosse, um coro de garotos começa: “vai pro tanque! Vai lavar roupa! Volta pra cozinha!”. Diante da turma agitada, o sorriso complacente do professor. Nenhum comentário repreendendo os garotos. Efeito de curto prazo: garotas nervosas ou constrangidas, achando que falaram alguma bobagem. Médio e longo prazo: garotas (ou garotos mais tímidos, ou garotos homossexuais) pensando muito antes de fazer qualquer pergunta, ou mesmo deixando de fazê-las em público.
  • Aula de laboratório de eletrônica. Exercícios práticos, com relatório para entregar no final. Às vezes fazíamos trios de mulheres, íamos muito bem. Alguns amigos, menos aplicados, copiavam as medições em suas folhas. Resultado: tiravam notas maiores.Ou éramos acusadas de copiá-los.
  • Oficina mecânica sem banheiro para mulheres (improvisa-se um).
  • Professor bonachão. Gosta de falar de mulheres. Ao ler em voz alta as notas finais ou entregar as provas, dizia que a prova das mulheres nem tinha lido: dava sempre 10, eram todas maravilhosas (curiosamente, o coro dos meninos nos mandando voltar ao tanque era sempre mais alto na aula desse sujeito).
  • Professor: “vocês estão tirando notas boas, para mulheres”. Algumas de nós tinham as melhores notas da sala.
  • Professor valentão gosta de contar vantagem na sala. Conta como sua mulher e filha têm que se trancar no quarto durante jogos do Corinthians, de tão agressivo que ele fica. Conta da vez que colocou eletrodos em uma mulher para medir seu orgasmo (curiosamente, era o mesmo professor que dava nota mais alta para os meninos que copiavam nossos exercícios de laboratório).
  • Três anos sem aulas de educação física. A professora era mulher, mas a quadra era dos homens.
  • Vendedores de componentes da Santa Ifigênia queriam cobrar mais caro pelas peças. Ou achavam que queríamos fazer bijouterias com elas.

Já ouço alguns comentários de colegas da época: “aaah, mas também fazíamos piada com outros garotos”. Ou então: “É bullying, sempre houve na escola”… Sim, com outros garotos, também havia piadas classistas ou homofóbicas. A palavra bullying é um conceito de moda que esconde o nome das coisas como deveriam ser chamadas: violência e discriminações.

Mas, dizia Michel Foucault, onde há poder, há resistência. Eu ainda não tinha as ferramentas do feminismo para ler o mundo, mas já sabia estar diante de grande injustiça. Acho que minhas colegas também.

Durante o terceiro ano, deveríamos desenvolver o projeto de final de curso. Outros grupos fizeram alarmes, sensores, projetos de sistemas de som… não me lembro bem. Nosso grupo era composto por quatro mulheres e dois homens. Objetivo: fazer uma máquina automática de bolos, que apelidamos de VOVÓMATIC. Afinal, mulher não tinha que ir para cozinha, se não quisesse: ela poderia construir a máquina que vai fazer isso por ela.

Projetamos e construímos a máquina. As piadas (do professor e dos alunos) iam diminuindo è medida que a coisa ia se tornando real. Programamos o microcontrolador com as receitas e o software que o comandava, conseguimos um trenzinho que ia abrindo os compartimentos dos ingredientes – que contavam, aliás, com ovo em pó –, cortamos os canos, adaptamos uma batedeira, calculamos as dimensões e perda de calor de um forno e, voilà, fomos à oficina mecânica para montar o forno. Uma estante velha fez as vezes de estrutura.

Era, sem falsa modéstia, o projeto mais ambicioso que havia passado por ali. Uma loucura deliciosa, uma resposta catártica para três anos de encheção de saco dos colegas.

A lendária VovóMatic, com minha querida amiga Milena (à dir.).

O vestibular chegou e, com ele, a escolha pelo Jornalismo. Não me arrependo da escolha, mas hoje tenho mais clareza de que a vivência daqueles três anos foi decisiva para me afastar do universo da tecnologia. Não que não houvesse machismo no outro caminho – como problema estrutural de nossa sociedade, ele está presente nas diferentes esferas e dimensões de nossas vidas.

E, no final das contas, o machismo tentou me expulsar da tecnologia, mas a tecnologia, substantivo feminino, sempre cruzou o meu caminho. Cá estou eu, de novo, aprendendo linguagens de programação, querendo brincar com Arduinos, pensando em como códigos e dados podem mudar para melhor a vida das pessoas.

Pergunto-me o que teria sido se essa história se passasse hoje, em 2015. As meninas têm mais ferramentas à mão: as redes sociais estão mais difundidas, os gravadores e celulares, mais baratos e potentes. Histórias de professores como as que contei não durariam um dia se viessem à tona. A internet também nos ajuda a ter mais referências sobre a questão de gênero – embora isso não seja automático.

Um episódio de machismo recente no trabalho me fez querer tirar essas histórias do baú. Desta vez, foi diferente: os óculos feministas só vão tornando a visão mais nítida, num caminho sem volta. Nos apoiamos em homens e mulheres sensíveis a essa condição, e a Fernanda de quase 30 anos, enxergando melhor que a de 15, não vai mudar o caminho para evitar essas pedras.

1  Claudia Paz Sarmiento Ramírez fala sobre isso no texto “Mirando la Discriminación con Otros Ojos”. Ela faz uma interessante metáfora da consciência individual da discriminação como óculos que dão novos detalhes, texturas e visões a um míope. Sarmiento nos lembra que, durante o processo educativo ao longo de nossas vidas, nossa percepção da realidade tende a naturalizar o entorno. “Quer dizer, o questionamento do que consideramos justo ou injusto, ou discriminatório ou não, pode não ser evidente à primera vista” (a tradução do espanhol é minha). O livro em que esse artigo foi publicado está disponível para download aqui.

Sobre a autora

Fernanda Campagnucci

Jornalista e gestora pública, especialista em acesso à informação, transparência, integridade e educação. As opiniões expressas neste blogs são pessoais.

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  • Também cursei Eletrônica, de 2003 a 2004, no CEFET-SP. Já haviam tido turmas com mais mulheres nos anos anteriores, não parecia uma novidade as mulheres atuarem nesse campo… Mas, na prática, as piadas de gênero eram sistemáticas e me abalavam. Eu tentava rir, tentava demonstrar que não me incomodavam para ver se alunos e professores paravam com elas, mas me lembro de chegar às lágrimas algumas vezes, escondida no banheiro ou em algum corredor próximo à sala de aula. Eu fui uma das primeiras colocadas da turma de 40 alunos, dos quais 38 eram homens. Numa das primeiras aulas de laboratório, que eram sempre em trio, os meninos acharam hilário falar para o professor que eu não tinha feito nada, só tinha “passado o relatório a limpo com letra bonita”, o que não era, nem de longe, verdade. Mas eu fiquei nervosa e não sabia o que fazer, afinal esse mesmo professor sempre demonstrava desdém pelas alunas. Pouco depois, na primeira prova teórica, ele me trocou de lugar e me fez sentar na frente dele. Não mudou nenhum dos rapazes de assento, é claro. Eu, muito nervosa pela perseguição, mal conseguia ler os enunciados. Para piorar, ele passou o tempo todo gritando nomes de mulheres na minha cara, tirando sarro de mim e me desconcentrando: “Priscila! Não… vou lembrar, Carolina! Jéssica!” Os rapazes riam, enquanto eu me corroía por dentro. Minha nota foi péssima e, ao meu ver, só confirmou as mentiras de que eu não fazia nada nas aulas práticas. Depois, ao longo do curso, fui recuperando as notas, mas sempre ficava tensa quando era supervisionada de perto pelos professores. Meu desempenho sempre caía nas provas práticas. Era uma frustração sentir que tinha de me provar o tempo todo. Hoje eu penso como fui ingênua, frágil e como faria diferente… mas passar por isso aos 15 anos e sozinha não é nada fácil. Nem sei o que se passava na cabeça da outra menina da turma. Ela não frequentava sempre às aulas e mal nos falávamos. Hoje eu vejo como éramos alvos fáceis. Isso aconteceu há mais de 12 anos e ainda me lembro em detalhes, vejam como me afetou…

  • Aos 16 anos decidi fazer um curso no Senai, sobre instalações elétricas industriais. Graças a esse curso decidi fazer Engenharia Elétrica, e hoje estou no meu último ano de curso, na UFSJ. Bom, sinto dizer que o machismo nosso de cada dia, apesar de disfarçado, continua ali. Está disfarçado nas piadinhas ‘sem maldade’, ou nas notas, ou no modo em que alunos e professores falam de nós quando nos afastamos. Sou muito segura quanto á profissão que escolhi, mas no fundo tenho receio de como será a minha vida trabalhando na indústria. Várias pessoas me dizem para seguir a carreira acadêmica, pois é melhor para uma mulher do que ir para a indústria. Muitos ainda não entendem como uma menina tão ‘delicada e bonita’ decidiu seguir uma profissão tão masculina, e ainda dizem que isso pode me atrapalhar a casar e ter filhos. Como eu disse, ele está ali, disfarçado…

  • Felizmente vivi outra realidade. Comecei minha história em TI em 2001 no ensino médio técnico no RJ em uma escola particular. Fazia parte da minoria de meninas que faziam técnico em exatas, era praticamente a mesma proporção, 40 homens para no máximo 5 mulheres. Não existia diferença, quem estudava se dava bem, quem não estudava se dava mal. Já na faculdade, a proporção ficou maior ainda, a turma começou com 70 homens e 10 mulheres, e sempre convivemos bem.

  • Olá Fernanda! Excelente texto que revela os obstáculos que enfrentamos pelo caminho. Esse machismo que nos acompanha desde as pequenas às grandes coisas da vida, como a escolha de uma carreira, ainda está vívido, mas vem se esgueirando disfarçado e muitas vezes não denunciado. Criei uma página chamada Why Menina (https://whymenina.wordpress.com/) para trocar ideias e empoderar. Você é bem-vinda para somar nesse time. A educação tem papel crucial para formar cidadãs e cidadãos que convivam em harmonia, que saibam dialogar e eliminar discriminações, tanto que questiono muito o plano de ensino que utilizam nas escolas e como professor@s podem atuar nessa jornada pela igualdade de gênero.

  • Vivi uma realidade parecida, fiz um técnico de informática em 2002 e 2003. Foi o que me ajudou a escolher pela computação. Mas por ter cabelo curto fui comparada a meninos, chamada de Dany Boy. O que falava que pra eu ser boa tinha que ser homem. Jogava futebol no interclasse masculino, pois a quadra era dos meninos. O ponto é que eu não percebi na época o que isso fazia comigo… O quanto isso me tornava até mais forte porque eu queria mostrar que era melhor do que aquilo que eles diziam. Mas tive professor machista que ficava cantando aluna tive aluno que colocava você pra baixo dizendo. Tive namorado que falou que não sabia porque eu tava estudando que eu ia ser dona de casa, nada contra mas quem me conhece sabe que eu quero mais. Infelizmente temos uma guerra que não começou ontem e nem vai terminar amanhã, precisamos educar os homens para não serem machistas e incentivar as meninas a fazerem o que quiserem.

    Beijos e continue com os projetos de tecnologia =)

  • Geralmente não deixo comentários, mas queria parabeniza-la pelo artigo. Foi uma boa leitura! Nao cursei nada parecido com você mas já vivi isso no Direito, onde a ‘Doutora’ nunca era inteligente, mas sempre ‘Gostosa’. O machismo continua aí, e não exatamente disfarçado..

    • Lu, sou colega de sala da Fernanda e com ela passei pelas mesmas dificuldades, que com certeza me afetaram. Por fim, como já era meu plano, cursei Direito e advoguei. Claro que não imaginava que nessa profissão eu teria que passar por situações semelhantes, mas no fim aconteceu como você: por ser jovem, “bonita”, baixinha, com voz de menina, cada dia era uma luta para mostrar que nada disso me definia. Sinceramente, desisti! Amo a teoria do direito e odeio a prática. Assim, mudei de ramo e sou feliz!!! Muito feliz!!!

  • Que pena 🙁

    Estudei Eletrotécnica na Escola Técnica Federal de São Paulo [atual Cefet-SP], antes de também enveredar pelo Jornalismo, e mesmo com a proporção de três caras pra cada rapaz, as raríssimas mulheres não sofriam nada disso, pelo menos não que eu tenha ficado sabendo.

  • Muito legal seu texto, “eu também passei por isso” deve ser a frase mais escrita nos comentários deste lindo post!
    Espero que experiencias passadas possam, sempre, nos ajudar e nos motivar a continuar com a cabeça erguida em busca de mais conhecimento!

    ^_^

  • pois é, faz 22 anos que estou na área de informática e nada mudou, ainda tenho cliente que acha que não sei desenvolver software, quando entrego eles ficam sem fala. e vamos levando a vida…

  • Tenho 15 anos e estou indo para o segundo ano de integrado de Eletrônica na ETESP.
    Quando estava estudando para passar no Vestibulinho e disse para minha professora que iria fazer ETIM de ELO, a mesma professora que me indicou o cursinho preparatório disse para eu prestar só EM pois ELO era coisa de menino, mas como também aconteceu com você, meu pais não são machista e meu pai sempre me incentivou a estudar (detalhe: meus pais são separados e eu moro com ele e meus dois irmãos), ter crescido no meio dos homens serviu para me ajudar a ser forte, pois sempre que meu pai ia arrumar o computador ou o carro lá estava eu do seu lado, desde pequena ouvia, claro, as piadinhas como “sai dai Betão” e coisas do tipo. Então ao ouvir minha professora falar isso só me deu mais vontade ainda de fazer eletrônica e mostra que não, não é só coisa de menino.
    Quando entrei na ETESP foi assustador ao mesmo tempo maravilhoso, pois sempre me senti bem com os homens (por mais que tivesse que ouvir as piadinhas), só que depois que conheci o feminismo na ETESP eu percebi que posso continuar a conviver com os homens sim! Mas não preciso aguentar o seu machismo!
    Tento sempre descontruir o machismo existente na minha sala, é difícil até porque a outra menina da sala vê o Feminismo com outros olhos e não consegue enxergar o meio machista em que está submetida (E não nos falamos muito, para ajudar kk). É difícil também pois, quando falo até para meus amigos mais próximos “Hey, isso é machismo, vamos parar ok?”. Eles respondem com um “Aonde isso é machismo?” “Você não sabe de nada” e por serem muitos meninos fico acuada para revidar.
    Até agora posso dizer que consegui um certo “respeito” por ser Representante, mas mesmo assim tem momento que só Goku na causa viu.
    O que gosto do meu professor do técnico é que ele me apoia muito, até porque tiro as melhores notas em suas matérias, alguns professores do médio ainda não conseguem discernir algumas coisas e fazem “brincadeiras” preconceituosas que mesmo não sendo para mim, me ofendem. Pois também sou bissexual e ouço muitas “brincadeiras” dos meninos por isso! Mas estamos ai tentando mudar isso né? E acho que o que mais fode mesmo é o fato de eu amar aqueles meninos kkk Pois me apoiaram em certos momentos, deixando o machismo de lado kkk.
    Sla, só queria por um pouco para fora kkk Obrigada e adorei seu texto!

  • OI, eu fiz técnico em automobilística na ETEC Jorge Street entre 2007 e 2008, única menina da sala e a mais nova.
    Bom, falaram que eu era troféu disputado entre os meninos, me pressionavam a beijar um menino porque ele era bv “mas tão legal e eu não podia deixar ele assim”, tive um professor que fez POLI e disse que eu nunca ia conseguir estudar lá e que não era lugar pra mim.
    Esse mesmo professor me testando durante as aulas pra provar que eu não era inteligente na frente da sala toda com conteúdos que não eram do curso e que eu ainda não tinha aprendido na escola.
    Esse mesmo professor quando discordamos de um assunto (nada a ver com o curso, mas que eu tinha aprendido naquele dia com um professor do colégio e que não era da área de conhecimento do professor) me humilhou na frente da sala toda, depois fiz um dossiê sobre o assunto para provar meu ponto, o professor se recusou a ler, desdenhou de mim e se recusou a admitir perante a sala que ele estava errado.
    Esse mesmo professor deu uma avaliação na forma de redação, a queal fiz muito bem pois tinha estudado muito e ele me deu a nota mínima pra passar, sendo que outros alunos escreveram muito menos, com menos conteúdo e obtiveram notas máximas.
    E ao reclamar para o coordenador do curso, esse disse “que o professor era assim mesmo e que não ia adiantar nada”.

    Lamentável.

    Mas no final o professor estava errado e hoje curso Eng Mecânica na Politécnica.

  • Querida Fernanda, eu só queria agradecer por escrever esse texto e me ajudar a resgatar memórias dos meus tempos de ensino médio. Também cursei eletrônica no Liceu de Artes de Ofícios, na turma de 2006 a 2008. E chega a ser engraçado como me identifiquei com cada vírgula que você desenhou – desde a subestimação dada pelos companheiros de classe e professores, até o desdém dos vendedores das lojas de componentes eletrônicos, que nos obrigava, pelo medo de sermos ludribriadas, a sempre pedir a companhia de um homem para comprar nosso material escolar.

    Outro fato cortante é a maneira como esse ambiente incentivava a colocar mulheres umas contras as outras através de comentários como “suas notas são até que boas para uma mulher”. Fora isso, o mercado de trabalho era uma dureza que só, já que a maioria das empresas não admitia pessoas do sexo feminino no estágio – obrigatório para a obtenção do diploma.

    Acabei saindo das exatas e me enveredando pelos caminhos do Direito, escolha da qual não me arrependo um mílimetro. Mas hoje, 8 anos depois, é muito interessante analisar o quanto que a discriminação sofrida nos tempos de colegial contribui pra minha escolha.

  • Fernanda, muito legal seu texto. Sua experiência como indivíduo possibilita uma clara leitura da sociedade em que vivemos e como até a escolha da profissão ainda passa por essa estrutura de preconceitos, de lugares de poder. Parabéns, gostei muito!

  • Oi, eu também fiz escola tecnica em informatica, entre 2011 e 2013, a minha turma era bem parecida com a sua no começo: eramos 40 pessoas e 8 delas eram meninas, no fim sobraram duas meninas, a maior diferença talvez seja a geografica, moro no interior da Paraíba, um dos estados mais machistas do país. Eu infelizmente me identifiquei com muitas das situações relatadas por vc, desde o bullying, passando pela falta de reconhecimento por parte dos colegas até mesmo comentários imbecis sobre meu corpo e assedio sexual. O resultado disso tudo: eu entrei em depressão e me trato com remedios até hj em dia mas o meu amor por informatica eh maior que o machismo, consegui ainda no medio premios importantes na area, fiz projetos, fui apresenta-los em diversas feiras no exterior inclusive e hj em dia estudo ciencia da computação

  • Passei por isso quando fui para o curso de Desenho Mecânico. Acabei desistindo e indo pro Curso Normal, até pq… era um curso para “mulheres”, segundo minha mãe (numa tentativa de me ‘incentivar’). Reler o mundo e o passado com a percepção feminista que tenho hoje, me angustia, mas explica muitas coisas que eu tb percebi (e ainda percebo!) como injustiças.

por Fernanda Campagnucci

Autora

Fernanda Campagnucci

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